Eu não queria falar sobre o assunto. Mas depois que acordei nesse domingo e vi que a Universidade Bandeirante (Uniban) expulsou a aluna que foi à aula no dia 22/10 e foi humilhada, escorraçada, e linchada moralmente apenas por usar um vestido rosa curto, não tive como. A Universidade publicou um informe publicitário dizendo que, de acordo com as regra de seu Regulamento Interno (RI), estava:
- Desligando a aluna Geisy Arruda por infringir a ética, a dignidade acadêmica e a moralidade
- Suspendendo os alunos envolvidos no episódio, temporariamente, mas só os que foram identificados.

Informe Publicitário da Uniban que comunica o desligamente da aluna do vestido curto
Bem, eu estudei no Mackenzie, me graduei em uma Universidade Presbiteriana, e já estudei em colégio católico (Colégio Marista Nossa Senhora da Glória, no Cambucí, que tem mais de 100 anos), ou seja, eu estudei em locais que teoricamente seriam mais tradicionais – leia-se moralista. Mas nunca, eu digo, nunca, onde estudei, vi nada parecido com o que ocorreu nessa Universidade e com essa aluna.
E olha que eu já vi muita coisa no Mackenzie, e ninguém fez nada. Mesmo em badalas nunca vi nada de mais também, e é bom lembrar que tem o componente álcool no meio em bares e danceterias – e seguranças para gentilmente apaziguar as coisas. Como bem disse Fausto Salvadori Filho, do Blog Boteco Sujo, “ela não vestia nada que já não pudesse ser usado nos anos 30“.

Mulhures com minissaia observando a vitrine na década de 1930
E o pior é que esses alunos da Uniban não se arrependeram do que fizeram, e prometeram, no dia 31/10, que caso ela (a aluna) voltasse para a faculdade, ela seria hostilizada da mesma forma. Uma aluna de comunicação disse: ”Ela provocou, quis só aparecer“. E outra disse também que ”foi só zoeira e o pessoal exagerou, mas ela mereceu“.
Imaginem uma dessas meninas trabalhando em uma agência de propaganda, com mulheres trajadas com blusas com decote que chega ao umbigo, microssaias e cintos maiores que a saia, com tatuagens e tudo mais. Será que elas “aguentariam”? Ou um cara que estuda engenharia que tentou “pegar” a aluna humilhada e não conseguiu, como que ele trabalharia com uma chefe mulher durona? Será que seriam bons profissionais? Como disse o Blog do Nassif, “Por causa dessa liberalidade excessiva, confundida com democratização do ensino, temos hoje no Brasil mais de 1.200 faculdades de direito, contra 182 nos EUA e temos no Brasil mais faculdades de medicina do que toda a Europa. Estamos enganando jovens e seus pais, formando falsos preparados para nada, uma legião de desempregados diplomados, na recente inscrição para emprego de garis no Rio se inscreveram 2.000 com curso superior“. Não à toa um das alunas ao Estadão que: “Como eu vou procurar emprego? Vão achar que eu ando sem roupa por aí“.
Pelo menos na Internet a revolta é geral, e já se abriu inquérito na Delegacia da Mulher e o MEC e a Secretaria da Mulher pediram explicações. Até o Suplicy (!) pediu explicações.
Um ponto levantado, agora no Blue Bus, é no quesito Universidade Popular. Disse o site que “O caso da moça da saia curta na Uniban, que culminou na surpreendente e absurda decisão da universidade de expulsar a aluna e apenas suspender os agressores, coloca em evidência o segmento das universidades populares, outro fenômeno criado pelo fortalecimento da Nova Classe Média Brasileira nos últimos anos“. E que ”Não surpreende, portanto, que o perfil do universitário brasileiro médio seja hoje bastante diferente do estereótipo ao qual nos acostumamos“.
Não é assim também, não se pode jogar tudo no mesmo balaio, mas não se pode generalizar. As Universidades para a Nova Classe média estão ai há um bom tempo, e é a primeira vez que isso ocorre, pelo menos é o primeiro que ouço falar.
Mas quais as verdadeiras razões que levaram a Uniban a expulsar a aluna Geisy? O poder econômico. Concordo com o que disse o Juliano Spyer no blog Talk.com: “Estamos todos entusiasmados para ver a Uniban ser apedrejada publicamente por uma atitude que, a princípio, a maior parte das empresas toma ou tomaria, que é: defender seus clientes e optar por ter menos dor de cabeça apostando que eventuais notícias negativas não se espalhariam”.
E a Universidade é uma empresa com fins lucrativos, ou seja, tem que proteger quem lhe dá lucro, nesse caso os alunos que se envolveram no episódio. Mas o problema é que antes de formar profissionais para a o mercado de trabalho, a Universidade deve sim é formar um cidadão, que será a elite pensante brasileira no futuro. Como podemos observar nesse caso essa elite será de vândalos, moralistas, acham que estão a cima da lei, e que não sabem conviver com as diferenças.
E como esse profissional irá conviver com as diferenças?
Update: no fim da tarde de segunda, dia 09/11/2009, a Uniban voltou a traz e não irá mais expulsar a aluna Geisy.